segunda-feira, 12 de agosto de 2019

A paulada que os argentinos deram no Neoliberalismo

Visitei a Argentina em 2017, fui na cidade de Rosário. Terra dos times de futebol New Old Boys, formador do Messi, e do Rosario central. Diziam pora lá que era a maior rivalidade do futebol argentino. Rosário também é a cidade onde nasceu Che Guevara, o ícone das lutas sociais e trabalhistas da América Latina. Curioso, perguntava aos argentinos qual o motivo de terem eleito Macri, era um momento em que o neoliberalismo já levava milhões a miséria na Argentina. A resposta era sempre a mesma: temíamos que Cristina nos transformasse em uma Venezuela.

Dois anos depois não foi surpreendente o resultado esmagador em favor de Alberto Fernández nas eleições primárias argentinas. A grande maioria dos argentinos decidiu punir fortemente um governo que, desde que assumiu, em 2015, aplicou políticas que tendem a favorecer uma pequena minoria e atingem as condições de vida da maioria, disse Daniel Filmus ex-ministro da Educação da Argentina.

Alberto Fernández e Cristina Kirchner obteveram 47% enquanto Mauricio Macri e Miguel Ángel Pichetto ficaram só com 32%, deve ser interpretada como uma decisão enorme do povo argentino para mudar de rumo. Segundo o ex-ministro, os argentinos buscam escolher um governo que favoreça o desenvolvimento industrial, que recupere o salário, o trabalho e os interesses daqueles setores que querem uma Argentina produtiva, que desenvolva, mas distribua os benefícios entre todos.

Os eleitores argentinos se enquadra na rejeição dos povos da região às propostas de direita. Os governos neoliberais que chegaram à Argentina, Brasil ou Chile não tinham projetos novos para oferecer e reaplicaram as políticas que já haviam fracassado nos anos noventa. Os resultados estão à vista: os países se tornaram menores, a distribuição de renda foi mais regressiva, a indústria foi destruída.


Para Filmus, o resultado negativo para Macri foi a primeira resposta a esse respeito. Mas certamente haverá mais, previu um deputado da cidade de Buenos Aires, prevendo resultados favoráveis ​​para opções de esquerda na Bolívia e no Uruguai, que também realizarão eleições gerais em outubro.

Para o sociólogo argentino Atilio Borón, o resultado da primária é um exemplo dos direitos da Argentina e da região. "Eu acho que eles têm que olhar nesse espelho não apenas outros governos neoliberais, mas também vários candidatos que querem lançar programas semelhantes aos de Macri".

O analista não hesitou em descrever a vitória de Fernandez como "um terremoto político que enterra por muitos anos a possibilidade do retorno da direita ao governo". Borón disse ainda que a recuperação do peronismo deixa "muito preocupado" o governo dos EUA e o Fundo Monetário Internacional (FMI).
 

O deputado uruguaio e presidente do Parlasur, Daniel Caggiani, descreveu o resultado das primárias como uma "espoliação do povo argentino ao neoliberalismo". Segundo Caggiani, a eleição primária abre a possibilidade de que a Argentina tenha "um governo com uma visão latino-americana e com uma visão mais autônoma na construção de desafios internacionais".

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